Quando o apito final soou e o Arsenal venceu o Corinthians por 3 a 2 para conquistar a Copa das Campeãs da FIFA, não era só um título mundial que estava sendo escrito. Era o ponto mais alto de uma trajetória que começou muito longe dos holofotes e muito perto dos sonhos.
À beira do campo, Renée Slegers não gritava. Não corria. Não fazia gestos teatrais. Como quase sempre, ela observava. Com calma e controle. Com a mesma serenidade que a acompanha desde os tempos em que era apenas uma adolescente tentando se encontrar no futebol.
Aos 17 anos, em 2006, Slegers entrou na base do Arsenal. Jogou pouco, fez só uma partida no time principal e saiu no ano seguinte. Naquela época, o clube acabava de ser campeão europeu. Ela mal imaginava que, anos depois, voltaria não como jogadora, mas como a mulher que levaria o Arsenal de volta ao topo da Europa… e agora, do mundo.

A carreira dentro de campo terminou cedo. Uma grave lesão no joelho, em 2016, encerrou o sonho de jogar futebol no auge. Enquanto a Holanda se preparava para vencer a Euro no ano seguinte, Renée estava fora. Não foi o final que ela planejou. Mas foi o começo de outro.
“Ela sempre foi muito inteligente”, diz quem jogou ao seu lado. Inteligente não só no jeito de passar ou ocupar espaços, mas na forma de entender o jogo e as pessoas. Estudou comunicação, pensou em seguir outro caminho, mas o futebol chamou de novo. Dessa vez, com prancheta, não com chuteiras.
Se encontrou como técnica
A jornada como treinadora começou na Suécia. Passou por equipes menores, base, seleção sub-23, time B. Até chegar ao Rosengård. Lá, virou técnica principal e ganhou dois campeonatos suecos seguidos. Foi ali que Jonas Eidevall, então técnico do Arsenal, ligou. Queria levá-la para Londres. Primeiro para desenvolver jogadoras. Depois, para ser sua auxiliar.
Quando Eidevall deixou o clube em outubro, o Arsenal estava instável. Quinto lugar na liga. Slegers assumiu interinamente e mudou tudo. Vieram 10 vitórias em 11 jogos. O time voltou a acreditar. As jogadoras voltaram a sorrir. E ela virou técnica efetiva em janeiro de 2025.

Quatro meses depois, levou o Arsenal ao título da Champions League pela primeira vez em 18 anos, batendo o Barcelona na final. E agora, em 2026, completa a obra: vence o Corinthians e coloca o clube no topo do mundo. Mas talvez o maior diferencial de Renée Slegers não esteja no quadro tático. Está no modo como ela se relaciona.
“Ela vê todo mundo”, dizem as atletas. Sabe quem precisa de cobrança, quem precisa de silêncio, quem precisa de conversa. Escuta. Observa. Entende. Transforma. Não é uma técnica de frases prontas. É uma técnica de presença.
Além das quatro linhas
Fora do campo, Renée é simples. Gosta de plantar, reformar, cuidar da casa, estar com a família. Nada de personagem. Nada de pose. A mesma mulher que ergueu o troféu mundial é a que gosta de colher legumes no quintal. E talvez seja por isso que suas equipes joguem como jogam: com organização, mas também com alma.
