Por décadas, as jogadoras de futebol conviveram com um problema aparentemente simples, mas profundamente simbólico. Seus uniformes eram apenas versões reduzidas dos modelos masculinos. As camisas possuíam corte reto, além de mangas e comprimentos pensados para homens. Da mesma forma, os tecidos não acompanhavam as demandas fisiológicas das mulheres. Essa prática refletia um padrão onde o corpo masculino era a referência universal. Consequentemente, o corpo feminino surgia como um “desvio” que precisava apenas ser encolhido.
Atualmente, os últimos anos sinalizam uma mudança real nesse cenário. As marcas esportivas finalmente levam em conta a anatomia e as necessidades específicas das atletas, inclusive do Futebol Feminino.
O fim dos adaptados: tecnologia para mulheres
A transformação mais visível ocorreu em torno da Copa do Mundo de 2019. Pela primeira vez, grandes seleções e clubes passaram a usar uniformes desenvolvidos especificamente para mulheres. Essas peças trouxeram cortes, proporções e tecnologias pensadas para o corpo feminino. Antes disso, as jogadoras competiam frequentemente com modelos masculinos cortados. Logo, as marcas ignoravam diferenças anatômicas importantes, como a largura dos ombros e a dinâmica de movimento do tronco.
Janine McPhee, ex-jogadora da seleção australiana em 1987, relata as dificuldades da época. “Também havia dificuldade em relação aos números. Meu número era sempre o 13, mas muitas vezes não conseguimos os números que queríamos porque o importante era qual camisa ou short realmente serviria em você.” De fato, quando se trata de desigualdade, o problema muitas vezes reside nos detalhes técnicos.

Mapeamento corporal e ergonomia
Marcas como a Nike explicaram que as equipes femininas exigiam ajustes distintos. Elas redesenharam mangas e golas para não limitar o movimento de jogo. Além disso, criaram shorts que equilibram cobertura e conforto sem interferir na performance. Segundo Cassie Looker, gerente de produtos da Nike, ajustar a peça ao corpo da mulher é uma questão de funcionalidade. Ela afirma que as atletas procuravam camisas que oferecessem uma cobertura diferente dos modelos masculinos.

Esse processo passou por uma etapa inédita de pesquisa aplicada. A Nike levou jogadoras para um laboratório de mapeamento corporal nos Estados Unidos. Lá, os técnicos realizaram escaneamentos detalhados para compreender o movimento feminino no futebol. A partir desses dados, a marca identificou padrões importantes, como a maior concentração de suor na cintura. Além disso, notaram diferenças significativas no desenvolvimento muscular das atletas.
Redesign focado na potência feminina
Ficou claro que as jogadoras apresentam quadríceps e glúteos mais robustos em comparação a outras modalidades. Por isso, a empresa realizou um redesenho completo dos shorts. O novo ajuste passou a respeitar essas áreas, evitando compressões excessivas. Outro ponto revisto foi o cós, onde a marca substituiu o tradicional cordão por uma faixa elástica respirável. Para Looker, essa região concentra a força do jogo feminino, já que a potência das atletas vem do corpo inferior.
Do “resize” ao “redesign”: saúde em jogo
Durante muitos anos, a indústria reduzia o tamanho do uniforme masculino e o entregava às mulheres. Para Mariana Camargo, médica do esporte do Hospital das Clínicas, essa prática ignorava diferenças básicas entre os corpos. Na avaliação da especialista, tratar o uniforme como uma versão “menor” desconsidera fatores fisiológicos e biomecânicos essenciais. Certamente, essa negligência afeta tanto o desempenho quanto a saúde das atletas.
As consequências ultrapassam o desconforto visual. Uniformes mal planejados podem provocar problemas dermatológicos e ginecológicos, como assaduras e infecções. Segundo Camargo, o risco aumenta quando o tecido retém umidade e não permite a ventilação adequada. Além disso, a falta de ergonomia estende-se aos calçados, influenciando diretamente o risco de lesões graves.
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Prevenção de lesões e bem-estar
Estudos mostram que mulheres têm maior predisposição a lesões no ligamento cruzado anterior (LCA). Isso ocorre devido a características anatômicas como a largura do quadril e o ângulo do fêmur. Quando a chuteira não acompanha essas particularidades, o perigo cresce. Modelos inadequados podem favorecer entorses e fraturas musculares. Por décadas, o uniforme foi um tema secundário, ofuscado por debates sobre falta de estrutura e baixos salários.

A mudança de mentalidade ganhou força recentemente. Um exemplo concreto ocorreu antes da Eurocopa de 2022. A seleção inglesa trabalhou com pesquisadores para desenvolver sutiãs esportivos personalizados. Essa iniciativa evidenciou que a adaptação correta do uniforme determina o conforto e o desempenho das jogadoras.

Mais do que aparência: identidade própria
A evolução dos uniformes faz parte de um movimento de valorização do Futebol Feminino. Ela dialoga com a crescente visibilidade das atletas e debates sobre igualdade estrutural. Peças desenhadas para mulheres reforçam que elas possuem demandas e identidade próprias. O novo padrão de design reflete isso ao considerar proporções corporais, biomecânica e conforto térmico.
Exemplo de sucesso no Brasil
Um exemplo que reforça este debate ocorreu no marketing do Corinthians em 2021. A campanha “Respeita as Minas” foi amplamente divulgada e tornou-se um mantra entre os torcedores. Pela primeira vez, o time feminino estreou o uniforme oficial de um clube da elite brasileira. Essa ação simbolizou o respeito e a integração entre os departamentos do clube.

Uniformes que representam a categoria
A mudança dos uniformes representa uma transição cultural importante. Atualmente, as atletas deixam de ser secundarizadas na tecnologia esportiva. O fim da mera “adaptação” masculina marca a jornada por reconhecimento no esporte. Embora ainda existam desafios no desenvolvimento de equipamentos, a evolução é inegável. Uniformes realmente projetados para mulheres substituem uma era de adaptações que as colocavam em desvantagem técnica e simbólica.

