Ao olhar para a tabela do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino, são notórias as diferenças entre Bahia e Vitória. Enquanto as Mulheres de Aço brigam por uma vaga no G-8, as Leoas lutam contra a zona de rebaixamento.
Muitos aspectos geram essas mudanças entre as principais equipes do Futebol Feminino Baiano atualmente, e nossa equipe do Campo Delas, do Portal iG, preparou uma matéria especial para contar essa história e o que gera as diferenças.
Futebol Feminino Baiano
Eu sei que você conhece o Bahia e o Vitória, mas talvez você não conheça o São Francisco do Conde. Antes das Mulheres de Aço e Leoas da Barra terem uma equipe profissional de Futebol Feminino, era o São Francisco que comandava a modalidade no estado. A equipe conquistou 14 títulos do Baianão Feminino entre 2001 e 2014.
Criado na cidade de mesmo nome, o São Francisco do Conde foi a primeira equipe baiana a disputar o Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino, fez história na Copa do Brasil Feminina e alcançou o terceiro lugar no ranking da CBF. A equipe dominou o Futebol Feminino da Bahia durante os anos dois mil, revelou jogadoras como e teve a craque Formiga no elenco.
Talvez você esteja se perguntando: “O que o São Francisco do Conde tem a ver com Bahia e Vitória?”. Nós vamos chegar na dupla Ba-Vi, mas antes, “caro e gentil leitor”, você precisa entender que o Futebol Feminino da Bahia passou por ciclos até chegar nas equipes que se destacam atualmente.

História do São Francisco do Conde
O São Francisco do Conde foi destaque estadual, regional e nacional, mas, com a morte da prefeita Rilza Valentim, grande apoiadora do Futebol Feminino da cidade, a equipe perdeu, em 2015, o patrocínio da prefeitura. A partir deste momento, a equipe do interior baiano passou por dificuldades financeiras. Em 2018, tentou firmar uma parceria com o Bahia; a equipe tricolor prestou apoio logístico e com uniformes, mas a parceria não se estabeleceu em 2019 como o previsto.
Com esses baques negativos, a equipe que esteve entre as três melhores do país foi rebaixada em 2019. Disputou o Brasileirão Feminino A2 em 2020 e depois se desfez, chegando ao ponto de ter o Futebol Feminino suspenso, retornando somente em 2025.
Por coincidência ou roteiro do destino, ou não, muitas atletas migraram para o Vitória e para o Lusaca (guarde bem este nome, vamos falar mais sobre ele em breve, aguarde).

Vitória Feminino
Agora você vai conhecer a história das Leoas e vai compreender a realidade da equipe. A jornada do Vitória no Futebol Feminino começou no Campeonato Baiano de Futebol Feminino; a equipe montou times para disputar a competição. Mas, na temporada 2008/2009, o clube decidiu criar um departamento para a modalidade, e nasceram as Leoas da Barra.
Como o São Francisco do Conde já possuía uma hegemonia consolidada no Futebol Feminino da Bahia, a equipe do Vitória teve dificuldade de se destacar. Entre altos e baixos, o projeto Leoas da Barra se firmou e se estruturou em 2015. No ano seguinte, em 2016, o Vitória participou pela primeira vez do Brasileirão e conquistou o Baianão Feminino do ano.
A primeira participação no Brasileirão não foi fácil, mas o Vitória conseguiu se manter na competição. No ano seguinte, em 2017, o Vitória foi rebaixado. Mas calma, não é o fim, e, após esse revés, as Leoas ressurgiram como uma fênix, mostrando que o DNA da equipe é a resiliência.
As Glórias do Vitória
Em 2018, o Vitória participou do Brasileirão Feminino A1 e iniciou as divisões de base do Futebol Feminino no clube. Além de conquistar o acesso, foi um ano superespecial devido a uma conquista inédita: as Leoas da Barra conquistaram o Baianão Feminino de 2018.
Não foi apenas a conquista de uma competição estadual, foi um símbolo de que o Vitória desejava ser a equipe destaque do Futebol Feminino Baiano. Mais que um desejo, as Leoas viveram esse glamour em 2019. O Vitória teve jogadoras convocadas para a Seleção Brasileira, como Rute na Sub-20 e Mary Camilo na Sub-20 e principal.
Foi também em 2019 que o Vitória teve sua melhor campanha no Brasileirão Feminino, com a nona colocação na tabela. Foi o ano em que a equipe se consolidou como destaque do Futebol Feminino Baiano.
Desventuras do Vitória
O Vitória passou por mais um teste de resiliência. Em 2020, a equipe foi rebaixada e, em 2021, disputou o Brasileirão Série A2; a equipe ficou na quarta posição do Grupo B da competição. Mas as adversidades só aumentaram: no mesmo ano, a equipe masculina do Vitória foi rebaixada para a Série C do Campeonato Brasileiro Masculino.
Com os rebaixamentos, o Vitória recebeu menos investimento, menos patrocínio, sofreu uma redução drástica de receita e passou por problemas financeiros. Com o time masculino na terceira divisão, todas as categorias de futebol e esportes olímpicos do Vitória sofreram o impacto. A base masculina perdeu o título de clube formador, e o Futebol Feminino do clube foi desativado.
O retorno do Vitória
Lembra que trouxe a informação de que a resiliência é marca das Leoas e que elas ressurgiram como uma fênix? Em 2023, o Vitória retornou com tudo para o Futebol Feminino e chegou à final do Campeonato Baiano da modalidade.
O vencedor da competição garante o acesso ao Brasileirão Feminino A3. Como o Bahia, equipe que conquistou o título, não precisava da vaga, porque estava garantido no Brasileirão Feminino A2, as Leoas exerceram o direito de disputar a competição.
Essa oportunidade de disputar uma competição nacional era tudo que o Vitória precisava para reescrever a sua história. Em 2024, disputou o Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino e conquistou o acesso. Em 2025, de uma forma diferente e fora do roteiro habitual, o Vitória conquistou mais um acesso e hoje disputa o Brasileirão Feminino 2026.

Dificuldades do Vitória em 2026
A equipe passou por vários desafios, fez um planejamento para disputar o Brasileirão Feminino A2, mas está na elite do Futebol Feminino nacional. O técnico Marcos Carvalho descreveu que o objetivo do Vitória é se manter no Brasileirão Feminino A1.
“Na realidade, o nosso objetivo é permanecer dentro do Brasileirão Feminino Série A1. Depois, no ano seguinte, almejar algo a mais lá na frente, se classificar entre as oito melhores equipes e ter uma visibilidade melhor. Porque o Vitória voltou a disputar a Série A1, então a visibilidade é totalmente diferente para todos.”

O Bahia no Futebol Feminino
Eu já contei para você que a parceria entre o Bahia e o São Francisco do Conde não deu certo, mas eu também falei sobre um time chamado Lusaca. A equipe conquistou o Campeonato Baiano de Futebol Feminino em 2017. Em novembro de 2018, o Esporte Clube Bahia anunciou uma parceria com o clube Lusaca que marcou seu retorno ao cenário do Futebol Feminino. O acordo, que durou cerca de um ano, foi essencial para a consolidação de uma equipe feminina tricolor.
As atletas eram oriundas do Lusaca, enquanto o Bahia ficou responsável por custear as despesas operacionais, fornecer uniformes de jogo e treino, além de ceder sua estrutura profissional, como os departamentos médico, fisioterápico e de registro, além do Centro de Treinamento Fazendão.
Durante a breve existência do Bahia-Lusaca, a equipe teve desempenho expressivo no cenário regional e nacional. Em 2018, ficou com o vice-campeonato do Baianão Feminino. No ano seguinte, avançou até as quartas de final do Campeonato Brasileiro Feminino Série A2.
Bahia cria equipe própria
O Bahia optou por novos rumos, quis caminhar sozinho e após o final do Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino Série A2 2019, o Bahia encerrou a parceria com o Lusaca e montou uma equipe independente para disputar competições. E, no ano de estreia do Bahia Feminino, as Mulheres de Aço conquistaram o título do Campeonato Baiano de Futebol Feminino e uma vaga para o Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino Série A2 em 2020.
Desde que o Bahia criou um projeto próprio de Futebol Feminino, as Mulheres de Aço conquistaram todos os títulos do Baianão Feminino. A equipe soma seis conquistas consecutivas entre os anos de 2019 e 2015.
Chegada do City no Bahia
Em 2022, as Mulheres de Aço estavam no Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino Série A2, e o elenco masculino do Bahia no Brasileirão Série B. O clube era uma associação quando iniciaram as negociações com o City Football Group (CFG) para que o Bahia virasse uma SAF (Sociedade Anônima do Futebol). O modelo de empresa foi criado por lei em 2021 (Lei 14.193/2021) e permite aos clubes de futebol brasileiros migrarem da estrutura de associação civil sem fins lucrativos para clube-empresa.
O então presidente, Guilherme Bellintani, conduziu as negociações e, em dezembro de 2022, os sócios torcedores votaram e aprovaram o projeto que transformou o Bahia em SAF.
Com a aprovação dos sócios torcedores, o projeto seguiu em negociação e, em maio de 2023, o clube se tornou o Esporte Clube Bahia SAF. A venda do clube para o CFG foi de 90%, com um investimento de R$ 1 bilhão para compra de jogadores, pagamento de dívidas e infraestrutura.
O Bahia se tornou o 13º clube do grupo City, que, desde 2023, administra os departamentos de futebol do clube: Futebol Feminino, masculino e categorias de base. Hoje, o clube tem como CEO Raul Aguirre.
No primeiro ano da gestão do Grupo City, o Bahia Feminino fez mais uma campanha lutando contra o Z-4 e, mais uma vez, não teve êxito. A equipe ficou na décima terceira posição na tabela e foi rebaixada do Brasileirão Feminino A1.

Mudanças na estrutura e na campanha
Com a chegada do CFG, os investimentos e a estrutura do Futebol Feminino do Bahia cresceram. Em 2024, o clube construiu uma ala feminina no Centro de Treinamento Evaristo de Macedo.
O espaço das Mulheres de Aço no CT conta com uma sala de reunião, duas salas para uso da gerência e supervisão do futebol feminino, espaço de convivência e descanso para as atletas do elenco feminino. O espaço conta com decoração exclusiva e fotos de momentos marcantes da jornada do Bahia Feminino.
Foi neste mesmo ano que o Bahia Feminino conquistou seu primeiro título nacional. Sob o comando da técnica Lindsay Camila, as Mulheres de Aço venceram o Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino Série A2 2024.
O ano de 2025 foi um divisor de águas na história do Bahia. Foi a primeira vez que a equipe permaneceu no Brasileirão Feminino A1, e as Mulheres de Aço foram o primeiro time do Nordeste a conquistar uma vaga no G-8 do Brasileirão. A melhor campanha do Bahia Feminino na competição.
Também foi um ano marcante na Copa do Brasil: o Bahia Feminino se tornou a primeira equipe profissional do Tricolor Baiano a chegar às semifinais da competição. Somente equipes da divisão de base tinham conquistado este feito.
Bahia na temporada 2026
Não há garantias de que o Bahia vai continuar brigando para ser uma equipe relevante no cenário nacional do Futebol Feminino, este roteiro não é escrito por mim, a função do jornalista é narra a história. Mas este é o objetivo da equipe. Se em 2025 a equipe surpreendeu a todos conquistando uma vaga no G-8 do Brasileirão Feminino A1 e sendo semifinalista da Copa do Brasil, em 2026 o projeto das Mulheres de Aço é conquistar resultados similares.
Além de conquistar uma boa campanha em 2026, a goleira Yanne Lopes revelou que a Libertadores é o grande sonho que deseja viver com o Bahia Feminino.
“Referente ao Bahia Feminino, eu quero colocar o Bahia feminino num patamar que talvez ele nunca tenha estado antes. Muitas pessoas, às vezes, podem até achar que eu sonho alto demais, mas eu tenho certeza de que isso não é só sonho, é uma coisa que eu vou realizar. A gente trabalha bastante. Eu quero colocar o Bahia feminino numa Libertadores. E eu sei o quanto isso é possível.”

