O Futebol Feminino tem ampliado sua presença na mídia, nas competições e no público. Ao mesmo tempo, a modalidade está inserida em um contexto que envolve diversas questões relacionadas à estrutura fornecida pelos clubes, os investimentos e a organização das competições.
E para entender sobre os desafios e as perspectivas para a modalidade, o Campo Delas, do Portal iG, conversou com a atleta Raquel Guerra, goleira do Sub-15 da Ferroviária e com o William Bittencourt, ex-preparador físico do Palmeiras Feminino e atual coordenador técnico do Guarani Feminino.
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Contexto histórico
De acordo com o Relatório de Futebol Feminino Brasileiro 2025, realizado pela Outfield com apoio das Dibradoras, os primeiros registros de mulheres jogando futebol foram entre 1913 e 1915. Nessa época, a prática do esporte surgiu como uma forma de lazer para as elites urbanas, sem qualquer questionamento de normas de gênero.
A partir de 1920, as mulheres começam a ganhar destaque na modalidade e chamar atenção da população e da imprensa, como do Diário Carioca que registrou reportagens com tons irônicos, popularizando o jogo, porém sem receber credibilidade esportiva.

Em 1941, o governo Vargas com o Decreto-lei 3.199 criminaliza o futebol feminino e fecha os clubes, proibindo as mulheres da prática do esporte com a alegação de que a modalidade era “incompatível com sua natureza”.
A revogação da proibição aconteceu apenas em 1979, porém durante anos as mulheres continuaram a jogar, porém de forma marginalizada e escondida como forma de resistência simbólica. Dessa forma, a CBF promoveu a regulamentação da modalidade em 1983.
O primeiro campeonato nacional estruturado pela CBF, foi o Campeonato Brasileiro Feminino em 2013, que segue no calendário das equipes até os dias de hoje.
Competições
Atualmente o calendário do futebol feminino organizado pela CBF reúne competições em diferentes níveis, contemplando torneios do futebol profissional e das categorias de base, entre eles estão, o Campeonato Brasileiro A1, A2 e A3, Copa do Brasil, Supercopa, Campeonato Brasileiro Sub-20 e Sub-17 e as ligas de desenvolvimento Sub-16 e Sub-14.
Com os investimentos realizados pela CBF nas competições, o futebol feminino passou a contar com maior espaço para o desenvolvimento da modalidade. O ex-preparador físico do Palmeiras Feminino e atual coordenador técnico do Guarani Feminino, William Bittencourt compartilhou sobre as mudanças na modalidade e o investimento em tecnologia.
“Nossa preparação física melhorou muito. os profissionais estão se capacitando, se especializando em futebol feminino, né porque tem algumas diferenças, como o ciclo menstrual, então tem algumas coisas que precisam ser acompanhadas, né são diferentes do masculino e que fazem a diferença.”
“A tecnologia também, que agora os times grandes também conseguem, como o GPS, as plataformas de salto, por exemplo. São esses os equipamentos com mais equipamentos com mais tecnologias que você consegue um pouco mais de dados. Então hoje as equipes femininas pelo menos da séria A, maioria tem alguns equipamentos que ajudam nessa captura de dados, que trazem resultados diretamente pro campo”, falou William.

No entanto, muitos dos campeonatos nacionais ainda apresentam indefinição quanto às datas e aos locais dos jogos. Como é o caso da Supercopa, prevista para o dia 8 de fevereiro, que até o momento ainda não teve o local da partida confirmado, o que evidencia as dificuldades do planejamento do torneio.
Categorias de base
As categorias de base são de extrema importância para a formação de atletas no futebol, sendo o principal espaço de desenvolvimento técnico, físico e tático nas primeiras etapas da carreira.
No entanto, de acordo com dados de 2025, nem todas as equipes contam com estrutura voltada à formação de base. Na Série A1 do Campeonato Brasileiro, dos 20 clubes participantes, 14 mantêm equipes Sub-20. Além disso, apenas sete clubes investem em equipes Sub-15. Entre eles estão o São Paulo, Corinthians, Ferroviária, Juventude, Grêmio, Internacional e Avaí Kindermann.
A goleira do Sub-15 da Ferroviária, Raquel Guerra comentou sobre os desafios até ingressar na base do clube e a adaptação à rotina longe de casa.
“Um dos maiores desafios foi precisar me deslocar para outras cidades para treinar, além da adaptação entre modalidades, já que comecei no futsal, passei pelo society e só depois fui para o campo, no Guarani. Também precisei trabalhar bastante o lado emocional para lidar com a pressão, mas esses desafios foram essenciais para o meu crescimento como atleta”.

“Houve momentos em que pensei se realmente valia a pena, principalmente quando precisei sair da minha zona de conforto, ficando longe de casa, da minha família, dos meus amigos e até do meu cachorro. Mas o amor pelo futebol e pela escolha que fiz sempre falou mais alto. Mesmo com os desafios, entrar em campo continua sendo algo que me faz bem e me dá forças para seguir acreditando no meu sonho”, disse Raquel.
Desafios e entraves
Mesmo com as diversas evoluções do futebol feminino no Brasil e no mundo, a modalidade ainda enfrenta entraves, como a falta de oportunidades, investimento e até mesmo de preconceito. Esses fatores refletem na estrutura de parte dos clubes e na organização das competições
Em 2023, a pesquisa do DataFolha constatou que apenas 6% das mulheres no Brasil jogam futebol, enquanto a taxa de homens que praticam o esporte é de 38%.
“Ainda existem poucas oportunidades no futebol feminino. Há muitos talentos, mas, por falta de investimento dos clubes e, em alguns casos, por dificuldades familiares, muitas atletas acabam não tendo visibilidade. Mesmo assim, o futebol feminino no Brasil tem muita qualidade e potencial.” Disse Raquel Guerra sobre as oportunidades na modalidade.
“Por mais que o futebol feminino esteja evoluindo muito rapidamente, tem muitos desafios ainda. A gente nem tem como comparar com o futebol masculino principalmente na base. Na base a gente vê no masculino ter categorias desde Sub-10, Sub-8 já tem o futsal na maioria dos clubes e depois faz a transição pro campo. Isso no feminino não tem, a maioria começa lá pro Sub-15, tirando algumas equipes de ponta que tem essa a equipe de base, então esse é um desafio muito grande”, comentou William Bittencourt.

Futuro do Futebol Feminino
Com a Copa do Mundo 2027 chegando, dessa vez em solo brasileiro, alguns clubes estão investindo mais para tornar a modalidade ainda mais competitiva. Como o Palmeiras, que com a venda da atacante Amanda Gutierres, dedicou o valor da transação na construção de um CT exclusivo para a equipe feminina. Além da Ferroviária que também anunciou o projeto do espaço que será construído para as Guerreiras Grenás.
“Eu vejo o futuro do futebol feminino com bons olhos, eu acho que vai evoluir muito. Mas eu acho que a federação deveria olhar com outros olhos, principalmente para as categorias de base, porque não é uma competição barata. Tem muitas equipes espalhadas por São Paulo que poderiam disputar o campeonato na Paulista, poderiam surgir novas meninas, poderiam surgir novas ‘Bias Zanerattos’, ‘Amandas Gutierres’, mas infelizmente não consegue disputar por causa dos valores“, comentou William sobre a perspectiva para o futuro da modalidade.

“Então acho que a federação deveria colaborar um pouquinho mais para fazer uma competição, um pouco mais viável aí em relação a valores para todos pudessem pelo menos começar a disputar os campeonatos de base. Eu falo isso porque para nós mesmos do Guarani feminino é um grande empecilho porque o valor é um pouquinho alto, e nas condições que nós temos hoje não conseguimos disputar. Então acho que isso seria um caminho”, complementou o coordenador técnico sobre os desafios financeiros enfrentados.
