Palmeiras monitora ciclo menstrual das atletas para ajustar treinos
Médica do clube, Debora Reiss, explica como o acompanhamento diário ajuda a identificar sintomas, adaptar cargas de treino e preparar atletas para jogos.
Durante décadas, um fator presente na vida de todas as mulheres praticamente não existia nas conversas no meio do futebol: o ciclo menstrual. Hoje, porém, a medicina esportiva começa a olhar para o tema com mais atenção, inclusive dentro dos clubes.
No Futebol Feminino do Palmeiras, o ciclo menstrual das atletas faz parte do monitoramento do departamento médico e do Núcleo de Saúde e Performance. Questionários ginecológicos, acompanhamento diário de sintomas e ajustes individuais de carga de treino estão entre as estratégias usadas para entender como cada jogadora reage às diferentes fases do ciclo.
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Em entrevista ao Campo Delas, do iG, a médica da equipe feminina, Debora Reiss, explicou que o objetivo não é alterar completamente a programação coletiva de treinos, mas observar de perto os sinais do corpo de cada atleta.
“Por se tratar de um esporte coletivo, não é possível direcionar os treinos conforme o ciclo menstrual de cada uma. Eles são programados segundo uma ordem lógica de acúmulo ou manutenção de valências físicas e de carga de trabalho relacionada ao calendário de jogos, além do trabalho técnico e tático. A partir da programação do grupo, ajustes geralmente são feitos conforme as queixas individuais relacionadas ao ciclo”, explica.
Questionário ginecológico ajuda a mapear sintomas
O acompanhamento começa ainda na pré-temporada. Nesse período, as jogadoras respondem um questionário ginecológico desenvolvido pela ginecologista do esporte, Dra. Tathiana Parmegiano, que funciona como uma triagem de saúde feminina dentro do elenco.
A ferramenta ajuda o departamento médico a compreender o perfil geral das atletas e a identificar possíveis sintomas relacionados ao ciclo menstrual que mereçam atenção.
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“O questionário serve como uma triagem sobre saúde da mulher para entendermos um perfil geral do grupo e também detectar dúvidas sobre o ciclo menstrual ou queixas que precisam de avaliação médica especializada”, explica Debora Reiss ao Campo Delas.
Além disso, o clube promove conversas com especialistas para estimular o autoconhecimento das atletas sobre o próprio corpo.
Segundo a médica, esse processo permite identificar não apenas sintomas negativos, mas também percepções positivas relacionadas ao ciclo.
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“No questionário identificamos atletas que sofrem com sintomas pré-menstruais, como dor nas costas, irritabilidade ou alteração do sono, mas também aquelas que relatam se sentir mais fortes e mais ágeis em determinados momentos do ciclo”, afirma.
Palmeiras realiza treinos na Academia de Futebol, em São Paulo. (Foto: Paloma Cassiano/Palmeiras)
Monitoramento diário antes dos treinos
O acompanhamento do ciclo menstrual não acontece apenas em avaliações pontuais. Ele também faz parte da rotina diária do centro de treinamento.
Antes de cada sessão de treino, as jogadoras respondem um questionário que mede indicadores de recuperação física e percepção corporal. Entre os dados monitorados também estão a fase do ciclo menstrual e os sintomas associados a ela.
A partir dessas informações, o departamento médico consegue identificar quando uma atleta pode precisar de atenção individual.
“Se uma jogadora apresenta muitos sintomas, somados a fatores como uma noite mal dormida ou queda em indicadores físicos, como o salto vertical pré-treino, ela passa por uma avaliação individual para direcionar o controle de carga daquela sessão específica”, explica Debora Reiss.
Estratégias para evitar impacto em dias de jogo
O monitoramento ao longo da semana também ajuda a comissão médica a antecipar possíveis desconfortos em semanas de competição.
Segundo a doutora Debora, uma das funções do Núcleo de Saúde e Performance é garantir que a atleta chegue ao dia da partida nas melhores condições físicas e mentais possíveis.
“A principal forma de evitar a influência negativa do ciclo no dia de jogo é a soma de dois fatores: autoconhecimento por parte da atleta e o monitoramento ao longo da semana”, explica.
Quando os sintomas são identificados com antecedência, a equipe médica pode adotar estratégias específicas de cuidado.
Em casos de cólicas intensas, por exemplo, pode ser orientado o uso preventivo de anti-inflamatórios antes do início do fluxo menstrual. Já em situações de retenção hídrica no período pré-menstrual, o clube pode programar sessões de drenagem linfática com o massoterapeuta da equipe.
Jogadoras do Palmeiras no jogo contra o Grêmio (Foto: Paloma Cassiano/Palmeiras)
Cada atleta reage de forma diferente ao ciclo
Apesar dos avanços no acompanhamento do ciclo menstrual no esporte de alto rendimento, Debora Reiss explica ao Campo Delas que ainda não existe uma relação científica completamente comprovada entre cada fase do ciclo e o desempenho esportivo.
“Para comprovar essa influência é necessário elaborar um protocolo de pesquisa clínica que demonstre estatisticamente a relação entre os sintomas e a performance”, afirma.
Na prática, o que se observa é que o impacto varia bastante entre as atletas. Algumas apresentam sintomas mais intensos e enfrentam períodos mais difíceis ao longo do mês. Outras praticamente não percebem interferência na rotina de treinos.
Segundo a médica, um dos desafios é justamente romper com a ideia de que os sintomas menstruais precisam ser simplesmente tolerados.
“Muitas atletas aprenderam a conviver com cólica, irritabilidade ou dor nas costas como se fossem coisas normais da vida de uma mulher. Nosso trabalho é mostrar que esses sintomas podem ser tratados com medicamentos, medidas não farmacológicas ou até métodos anticoncepcionais que tragam maior previsibilidade e conforto para a atleta”, conclui.
Jornalista formada pela UNESP e apaixonada por futebol. No iG, conto histórias que vão além dos 90 minutos: bastidores, personagens, curiosidades e tendências do universo esportivo. Com passagens por rádios, portais e agências, atuando como repórter, social media e assessora de imprensa. E-mail: [email protected]