O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o BAP, concedeu, na última sexta-feira (10), uma entrevista para o canal do jornalista Venê Casagrande. Dentre os pontos abordados, estão questões ligadas diretamente ao Futebol Feminino do clube. Dessa forma, o dirigente falou sobre os custos e o modelo de gestão da modalidade, além do projeto de construção de um miniestádio dentro do Ninho do Urubu, centro de treinamento do Futebol Masculino.

Investimentos e prioridades em pauta
A maior parte da entrevista, abordou temas relacionados ao Futebol Masculino, afinal, trata-se da principal modalidade do clube. O presidente BAP detalhou, assim, investimentos, futuras contratações, além de outros assuntos relativos a direito de transmissões, faturamento e gestão. Em certo momento, o Futebol Feminino entrou em pauta, partindo do assunto da construção de um miniestádio dentro do CT do Flamengo, o Ninho do Urubu.

Novo estádio para o Futebol Feminino
O Flamengo irá construir um estádio com capacidade para 4.500 pessoas, com intuito de receber partidas do Futebol de Base e do Futebol Feminino. De acordo com o dirigente, o investimento ultrapassa R$ 30 milhões, o clube tentará captar recursos via Lei Estadual de Incentivo ao Esporte, mas garante a conclusão com recursos próprios caso necessário. Durante a entrevista, BAP detalhou o projeto:
O Flamengo vai construir um miniestádio no Ninho do Urubu, com capacidade para 4.500 pessoas, que poderá receber todos os jogos da equipe Feminina. O projeto contará com espaço para transmissão, telões, refletores e setor destinado à torcida visitante. O investimento será superior a R$ 30 milhões e a previsão é que a obra seja concluída em aproximadamente um ano. Até no máximo setembro de 2027.” afirmou o presidente.

Futebol Feminino no CT do Ninho do Urubu
Seguindo no tema, BAP foi questionado se pretendia levar a estrutura do Futebol Feminino para o Ninho do Urubu. Vale lembrar, que o clube esteve envolvido em uma grande polêmica, por conta das condições inadequadas do local destinado ao treinamento das atletas da modalidade. Assim, o dirigente foi categórico ao afirmar que não há essa intenção:
“Não pretendemos levar o Futebol Feminino para treinar e ter um espaço dentro do Ninho do Urubu. Eu acho que as modalidades não devem se misturar. Quem defende isso não tem noção do impacto que essa decisão gera. Não é porque você já tem uma infraestrutura montada que ela pode ser utilizada por todo mundo. Você acaba tendo um incremento de custos, e foi exatamente isso que aconteceu.
Eu estava no clube quando começou o futebol feminino. Na época, quem defendia a implantação dizia que custaria R$ 400 mil por ano, que isso não era nada. Esses R$ 400 mil já viraram mais de R$ 20 milhões, com um prejuízo superior a R$ 11 milhões por ano.” respondeu BAP.

Déficit do esporte Feminino
Em mais uma fala polêmica sobre o Futebol Feminino, o presidente Rubro-Negro trouxe a informação de que todos os esportes Femininos, passam por problemas financeiros, além da falta de atratividade e audiência. Em sua fala, ele reitera que se trata, dessa forma, de um problema mundial:
“Isso não é um problema do Futebol Feminino. O esporte Feminino, no planeta, é deficitário. Isso acontece no tênis. A exceção, no Brasil, é o vôlei, que gera mais audiência do que o vôlei masculino. Tirando o vôlei, praticamente qualquer esporte Masculino gera mais atratividade e audiência do que o Feminino. Não é um problema do Brasil, é um problema do esporte no mundo. Então, vamos deixar as coisas nas suas devidas proporções.
Quando dizem que alguns clubes fazem mais dinheiro que o Flamengo com o Futebol Feminino, isso não é verdade. Por exemplo, eles recebem R$ 100 milhões de marketing e destinam R$ 20 milhões ao Futebol Feminino. Mas, se o Futebol Feminino não existisse, eles receberiam os mesmos R$ 100 milhões, que seriam destinados a outros esportes.” afirmou o dirigente.

Os demais esportes mantidos pelo clube
Na reta final do assunto “Futebol Feminino”, o presidente BAP fez comparações com os demais esportes que fazem parte da grade Rubro-negra, como ginástica olímpica, basquete, remo, entre outros. Em sua fala, ele faz uma analogia chamando os esportes de “filhos”:
Não vamos abraçar o Futebol Feminino dentro do CT do Flamengo enquanto a modalidade não caminhar com as próprias pernas. Nós temos remo, basquete, ginástica olímpica, nado artístico, polo aquático, tênis, judô e uma série de outras modalidades. Temos todos esses “filhos” para ajudar. O Futebol Feminino é apenas mais um. Ele nem era da família, foi agregado, foi adotado pelo Flamengo.
Nós temos limitações. Antes de aumentar o subsídio ao Futebol Feminino, eu preciso alimentar todos os outros esportes do Flamengo. O Flamengo não vai expandir de forma irresponsável apenas para atender ao discurso de A ou B, que acha que o clube deveria fazer isso ou aquilo.” finalizou o dirigente.

Números mostram a evolução do esporte
Diferente do relatado pelo presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Futebol Feminino tem tido cada vez mais audiência, atratividade e interesse dos patrocinadores. Exemplos recentes, dentro do território brasileiro, comprovam que a modalidade ganha cada vez mais adeptos. No dia 9 de junho, o amistoso da Seleção Brasileira Feminina contra os Estados Unidos, realizado na Arena Castelão, em Fortaleza (CE), reuniu 55.744 torcedores. Foi o maior registro de público na Região Nordeste.

Um estudo da Nielsen Sports, em parceria com a PepsiCo, projeta que o Futebol Feminino entrará para o grupo dos cinco esportes mais consumidos do mundo até 2030. A pesquisa estima um crescimento de 38% no público da modalidade, que deve ultrapassar a marca de 800 milhões de pessoas. Dados divulgados pelo Mapa do Patrocínio de uniformes de futebol no Brasil, produzido pelo Ibope Repucom, 92 empresas estamparam suas marcas nos uniformes das 16 equipes do Brasileirão Feminino em 2025. A pesquisa englobou patrocínios fixos, pontuais e fornecedores de material esportivo. Vale ressaltar, que 50% dessas parcerias foram exclusivas, ou seja, não acompanharam os mesmos patrocinadores das equipes do Futebol Masculino, demonstrando, portanto, o crescimento independente da modalidade.

Crescimento financeiro também impacta os esportes Femininos
Segundo o Bank of America, as receitas do setor podem avançar 250% até 2030. O movimento, segundo a instituição, é uma mudança estrutural no mercado esportivo, que vê, desse modo, no esporte Feminino uma nova fronteira de expansão. Ligas Femininas de modalidades como futebol, basquete, rúgbi e críquete aparecem entre as mais bem posicionadas para sustentar esse avanço nos próximos anos, ampliando, assim, receitas e relevância comercial.

As receitas globais do esporte Feminino também devem alcançar US$ 3 bilhões (R$ 15,3 bilhões na cotação atual) em 2026. Os dados são de um estudo da Deloitte. O valor representa, dessa forma, um crescimento de 25% em relação ao ano anterior. No Brasil, apesar de mais discreto, o crescimento é visível e contínuo, atingindo 20% de evolução desde 2020. Com a próxima Copa do Mundo Feminina sediada no país, a projeção dos números se torna, portanto, cada vez mais otimista. Tendo como exemplo a Copa do Mundo Feminina em 2023, um público de 2 bilhões de pessoas foram impactadas, enquanto os acordos de patrocínio triplicaram em relação a 2019. Os fatos e números mostram que o Futebol Feminino não é mais uma aposta.

