A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) anunciou esta semana um investimento de R$195 milhões para implementar a profissionalização da arbitragem nacional. A medida, considerada histórica, passa a valer já na edição de 2026 do Campeonato Brasileiro. O problema é que o novo modelo foi desenhado exclusivamente para a Série A masculina, deixando o Brasileirão Feminino fora da principal política estrutural anunciada pela entidade para o setor.
Ao todo, 72 profissionais foram inseridos no programa, que prevê salários mensais, taxas variáveis, bônus por performance, avaliações constantes, ranking por rodada e planos individuais de treinamento. A proposta é que os árbitros passem a se dedicar prioritariamente à função, com acompanhamento técnico, físico e tecnológico ao longo da temporada. Ainda assim, não há qualquer menção à inclusão do futebol feminino na fase inicial do projeto.
E o Brasileirão Feminino?
A exclusão chama atenção porque o Brasileirão Feminino vive um dos momentos mais consistentes de sua história. Nos últimos anos, a competição ampliou visibilidade, passou a contar com maior cobertura midiática, atraiu novos patrocinadores e elevou o nível técnico das partidas. Mesmo assim, a principal iniciativa da CBF para qualificar a arbitragem no país não contempla, ao menos por enquanto, o campeonato feminino.
Na prática, a profissionalização deve impactar diretamente apenas os jogos da Série A masculina. Enquanto o futebol feminino seguirá operando sob o modelo tradicional de escalas e remuneração por partida. A ausência de um cronograma ou de qualquer sinalização sobre quando, ou se, o Brasileirão Feminino será incluído reforça a diferença de tratamento estrutural entre as duas competições.
Arbitragem feminina no futebol masculino

Apesar de o projeto não envolver o futebol feminino, há mulheres entre os 72 profissionais selecionados pela CBF. Ao todo, 11 são mulheres, o que representa cerca de 15% do quadro. Entre os 20 árbitros centrais, apenas Edina Alves Batista aparece como representante feminina. Já entre os 40 assistentes, nove são mulheres: Anne Kesy, Brígida Cirilo, Daniela Coutinho, Fernanda Kruger, Fernanda Nandrea, Gizeli Casaril, Leila Naiara, Maira Mastella e Neuza Back. No VAR, apenas Daiane Muniz integra a lista.
Os números mostram que as mulheres já ocupam espaço na arbitragem nacional, mas ainda em proporção reduzida. Especialmente nas funções de maior protagonismo, como a de árbitra central e de vídeo. O dado também evidencia um paradoxo: há árbitras capacitadas e reconhecidas, muitas delas com atuação frequente no futebol feminino, mas o próprio campeonato onde essas profissionais se desenvolvem segue fora do principal projeto de valorização da arbitragem no país.
O discurso da CBF é de que a profissionalização representa uma “mudança estrutural profunda e necessária” no futebol brasileiro. No entanto, ao restringir o programa apenas à Série A masculina, a entidade reforça uma lógica histórica em que o futebol feminino avança em campo, mas segue atrás quando o assunto é política esportiva, investimento e organização institucional.

