A Copa São Paulo de Futebol Júnior funciona, todos os anos, como a grande vitrine do futebol brasileiro. É ali que jovens atletas dão os primeiros passos rumo ao profissional, que clubes testam projetos de base e que carreiras começam a ser desenhadas. Fora das quatro linhas, porém, o cenário muda pouco – e os números ajudam a entender o motivo.
Entre os 127 clubes confirmados na Copinha masculina, apenas oito contam com mulheres em cargos esportivos ou de liderança diretamente ligados ao futebol. A reportagem do Campo Delas, do Portal iG, fez o levantamento clube a clube, a partir de pesquisas em canais oficiais, registros institucionais, súmulas, comunicados e redes sociais. O resultado expõe uma presença feminina de apenas 6,3% no principal torneio de base do país.
Nos outros 119 times, a apuração não encontrou nenhuma mulher ocupando funções de comando esportivo.
A exceção entre 127 clubes
Essa baixa representatividade não aparece apenas nos números. Ela também se revela na dificuldade de acesso à informação. Em muitos casos, os próprios clubes não divulgam de forma clara quem compõe suas comissões técnicas ou estruturas de gestão do futebol.
Ainda assim, algumas exceções quebram o padrão. Palmeiras, Coritiba, Chapecoense, Ferroviária, América-RJ, Falcon-SE, Sfera FC e Meia Noite SAF são os únicos clubes da Copinha masculina com presença feminina identificada em cargos ligados diretamente ao futebol.
Na maioria desses casos, as mulheres ocupam funções executivas ou administrativas. Isso indica que o acesso à gestão tem avançado mais do que a presença feminina no dia a dia esportivo, especialmente dentro de campo.
Quando mulheres chegam à beira do campo
Se fora do gramado a presença feminina já é restrita, à beira do campo ela se torna ainda mais rara. Entre os 127 clubes da competição, apenas três mulheres foram identificadas atuando diretamente em comissões técnicas.
Na Chapecoense, Nívia de Lima construiu uma trajetória que foge completamente do improviso. Primeira mulher a integrar uma comissão técnica do clube, iniciou o trabalho no Sub-12, passou pelo Sub-15, onde conquistou dois títulos e um vice-campeonato da Copa Brasileirinho, foi vice-campeã catarinense na categoria e, em 2023, levou o Sub-17 à final do Estadual. Já em 2024, após retornar de Portugal, onde encaminhou a licença C da UEFA, assumiu o comando do Sub-20.

Na Ferroviária, Bruna Santos, de apenas 24 anos, atuará como auxiliar técnica da equipe masculina na Copinha. Atualmente auxiliar do Sub-20 feminino, ela comandou as Guerreiras Grenás na Copinha Feminina e agora transita entre os dois universos. Um movimento ainda pouco comum no futebol brasileiro.

Já no Sfera FC, Nádima Skeff trabalha como auxiliar técnica de Samuel Dias na principal categoria de base do clube, o Sub-19. Em um projeto jovem e estruturado para a formação de atletas, sua presença à beira do campo rompe um padrão histórico da competição. A profissional já comandou o América-MG feminino, foi treinadora das categorias de base do FC Boston, dos Estados Unidos e do Odense Q, da Dinamarca, além de ter sido auxiliar-técnica do do Minas Brasília.

Mulheres na gestão: onde o acesso avança mais
Nos cargos executivos, a presença feminina aparece com um pouco mais de frequência, embora siga muito distante do ideal. No Coritiba, Marianna Libano foi eleita presidente no fim de 2024 e assumiu o comando da associação no triênio 2025-27. No Palmeiras, Leila Pereira ocupa a presidência desde 2021 e lidera uma das instituições mais vitoriosas e midiáticas do país.
Em projetos mais recentes, como o Falcon, de Sergipe, fundado em 2020 como clube-empresa, Viviane Feliciano atua como vice-presidente ao lado de Marlei Feliciano, com foco reconhecido no trabalho de base. No América-RJ, Isabel Viana integra a comissão técnica como supervisora de futebol do Sub-20.
Um dos exemplos mais emblemáticos, porém, surge no Esporte Clube Meia Noite SAF. Fundado em 1959 e mantido por décadas como clube amador, o Meia Noite passou por uma transformação estrutural em setembro de 2024, quando se tornou SAF e colocou Dra. Lucinéia Fernandes no comando como CEO. Já em 2025, o clube se filiou à Federação Paulista de Futebol, estreou em competições oficiais com equipes do Sub-11 ao Sub-17 e confirmou presença na Copinha masculina de 2026.
Um retrato do futebol que está sendo formado
A Copinha masculina é, antes de tudo, um torneio de formação. Forma jogadores, mas também técnicos, dirigentes, gestores e lideranças. O retrato revelado pelo levantamento mostra que a desigualdade de gênero no futebol brasileiro não surge apenas no profissional, ela começa a ser construída ainda na base.
A comparação com a Copinha feminina reforça esse diagnóstico. Mesmo em um torneio disputado por mulheres, nenhuma das equipes semifinalistas teve treinadoras no comando técnico. Muda o gênero em campo, mas o poder permanece concentrado.
