Se a trend que resgata os anos 80 para imaginar como seria a vida naquela época fosse aplicada ao Futebol Feminino, o cenário seria bem diferente do que a nostalgia costuma mostrar, não é? Para as mulheres que queriam jogar futebol no Brasil, a década não representava apenas uniformes antigos, arquibancadas lotadas ou partidas em campos de terra. Era o período em que elas começavam a recuperar um espaço que havia sido negado por décadas.
E não por acaso. Poucos anos antes, jogar futebol ainda era uma atividade proibida para as mulheres no Brasil. A modalidade havia sido proibida oficialmente em 1941, quando o Decreto-Lei nº 3.199 determinou que mulheres não poderiam praticar esportes considerados incompatíveis com sua “natureza”. Em 1965, durante a ditadura militar, o Conselho Nacional de Desportos passou a citar nominalmente o futebol entre as modalidades proibidas para mulheres. A proibição só caiu em 1979.
A liberação não significou igualdade
O fim da proibição foi apenas o primeiro passo. O Futebol Feminino só ganhou regulamentação em 1983, quando o governo autorizou competições, calendários, uso de estádios e o ensino da modalidade nas escolas.
Enquanto os homens já contavam com uma estrutura consolidada no cenário brasileiro, as mulheres precisavam construir praticamente tudo do início. E, mesmo diante das limitações, alguns clubes conseguiram transformar a década em um período importante para a modalidade.
Um dos principais nomes foi o Esporte Clube Radar, do Rio de Janeiro. A equipe se tornou a grande potência do Futebol Feminino brasileiro nos anos 80 e conquistou seis edições consecutivas da Taça Brasil, entre 1983 e 1988. O clube também venceu seis Campeonatos Cariocas consecutivos no período.
O Radar não foi apenas um time vencedor. A equipe se tornou uma espécie de ponto de encontro para uma geração de jogadoras que buscava espaço em um futebol ainda marcado pelo preconceito e pela falta de estrutura.

O futebol feminino tinha talento, mas o que faltava era estrutura
Um estudo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) analisou justamente o que significava ser jogadora do Radar durante os anos 80. A dissertação “Boas de bola: um estudo sobre o ser jogadora de futebol no Esporte Clube Radar durante a década de 1980”, de Caroline Soares de Almeida, investigou aspectos sociais, financeiros e culturais da experiência das atletas.
O trabalho mostra que ser jogadora naquele período também significava enfrentar preconceitos e normas sociais que colocavam em dúvida a presença das mulheres no futebol. A pesquisa trata a atuação dessas atletas como uma forma de resistência às normas autoritárias que ainda estavam presentes na sociedade brasileira.
Ou seja: o problema não estava na falta de jogadoras ou de qualidade técnica. O futebol feminino brasileiro dos anos 80 não era pobre em talento. Era pobre em estrutura. E um episódio de 1988 ajuda a dimensionar essa diferença.
Brasil foi ao pódio, mas não tinha nem uniforme próprio
Naquele ano, a Federação Internacional de Futebol (FIFA, na sigla em inglês) realizou na China um torneio experimental com 12 seleções femininas. O Brasil participou da competição e terminou em terceiro lugar, conquistando a medalha de bronze.
A campanha já seria significativa por si só. Mas existe um detalhe que expõe o tamanho da desigualdade: segundo o levantamento histórico do Futebol Feminino brasileiro, as jogadoras viajaram para a competição utilizando sobras dos uniformes da seleção masculina.

A equipe, que tinha jogadoras capazes de disputar uma competição internacional e terminar entre as três melhores, ainda não recebia sequer uma estrutura básica equivalente à equipe masculina.
Clubes como Radar, Juventus-SP e Brahma-BA formavam a base do elenco brasileiro naquele torneio.
Uma década que não pode ser contada apenas pela nostalgia
Elas estavam entrando novamente em um esporte do qual haviam sido afastadas por décadas. Precisavam disputar espaço, enfrentar preconceitos e encontrar clubes dispostos a investir na modalidade.
O caso do Radar mostra que havia público, atletas e competição. O resultado da seleção em 1988 mostra que havia também capacidade esportiva para competir internacionalmente.
O que não existia na mesma proporção era investimento e estrutura.
O que mudou de lá para cá?

A diferença para 2026 é astronômica! O Futebol Feminino brasileiro possui hoje competições nacionais, divisões, calendário próprio e uma estrutura que seria praticamente inimaginável para muitas das pioneiras dos anos 80.
A própria Confederação Brasileira de Futebol (CBF) anunciou para 2026 uma reformulação das competições femininas, com aumento no número de clubes, partidas e datas, além de R$ 685 milhões em investimentos no conjunto das competições.
Mas esse crescimento também expõe o tempo que o Futebol Feminino perdeu.
A proibição do Futebol Feminino não interrompeu apenas partidas. Ela afetou a formação de atletas, a criação de clubes, a construção de competições e o desenvolvimento de um todo profissional em torno da modalidade.
Por isso, quando a trend pergunta “como seria nos anos 80?”, a resposta para o Futebol Feminino não deveria ser apenas uma foto antiga ou um uniforme retrô.
Nos anos 80, jogar futebol já era uma forma de resistência.
Antes de lutar por salários, transmissão, profissionalização ou igualdade de investimento, aquelas mulheres precisaram lutar pelo direito de estar em campo.
E estavam.



