O crescimento do Futebol Feminino no cenário global trouxe mais visibilidade, investimento e competitividade. No entanto, esse avanço também escancarou um problema histórico: por décadas, atletas mulheres foram treinadas, avaliadas e cuidadas a partir de modelos pensados para homens. Agora, iniciativas como a da Federação de Futebol dos Estados Unidos ajudam a jogar luz sobre um debate que também precisa avançar no Brasil.
Recentemente, a US Soccer anunciou a criação do Instituto Kang, um centro de pesquisa voltado exclusivamente para a saúde física e mental das jogadoras. A iniciativa nasce a partir de uma doação de US$ 30 milhões da empresária Michele Kang e tem um objetivo claro: corrigir desigualdades estruturais que impactam diretamente o desempenho, a longevidade e o bem-estar das atletas.

Por que o corpo da mulher precisa de outro olhar no esporte
Durante anos, o esporte de alto rendimento tratou a fisiologia feminina como uma variação da masculina. Isso afetou desde métodos de treinamento até equipamentos, prevenção de lesões e acompanhamento médico.
Hoje, pesquisas apontam que jogadoras têm entre duas e oito vezes mais chances de romper o ligamento cruzado anterior (LCA) do que atletas homens. Trata-se de uma lesão grave, que exige cirurgia e pode afastar a jogadora dos gramados por quase um ano. Mesmo assim, ainda há poucos bancos de dados específicos que ajudem a entender fatores como ciclo menstrual, carga de jogos, tipo de chuteira e histórico hormonal.
No Brasil, esse cenário se repete. Muitas atletas atuam sem acompanhamento multidisciplinar contínuo, especialmente fora da elite. Em categorias de base e clubes com menos estrutura, o risco de lesões aumenta justamente pela falta de estudos aplicados à realidade feminina.
Lesões, maternidade e silêncio histórico
Além das lesões ligamentares, jogadoras sofrem mais com concussões, problemas no tornozelo e sobrecarga física. Ainda assim, outro tema permanece pouco debatido: a maternidade.
No futebol, gravidez e retorno pós-parto raramente são tratados como parte da carreira esportiva. No entanto, especialistas defendem que esse processo exige acompanhamento físico e psicológico tão sério quanto qualquer lesão grave. Ignorar esse debate significa empurrar atletas para decisões difíceis entre carreira e vida pessoal — algo que também afeta o Futebol Feminino brasileiro, onde contratos, apoio médico e estabilidade ainda são limitados.

Saúde mental e abandono precoce: um alerta global
Outro eixo central do Instituto Kang é a saúde mental. Estudos indicam que meninas abandonam o esporte em maior número durante a adolescência, muitas vezes por não se sentirem pertencentes ao ambiente competitivo ou por experiências negativas com treinadores e dirigentes.
Pesquisas internacionais mostram que atletas mulheres têm o dobro de chances de desenvolver sintomas de depressão, transtornos alimentares e ansiedade quando comparadas aos homens. Comentários sobre corpo, peso e aparência ainda fazem parte da rotina esportiva, inclusive no alto rendimento.
No Brasil, relatos de jogadoras sobre pressão estética, insegurança financeira e falta de suporte emocional são frequentes. A ausência de profissionais capacitados nas comissões técnicas e nas categorias de base agrava esse cenário.
Casos que aconteceram no Brasil
Destaque do Cruzeiro Feminino na temporada de 2025 e dona da camisa 10 da Raposa, Byanca Brasil revelou diagnóstico de depressão. A atleta contou sobre o estado da sua saúde mental em entrevista ao Podcast do Portal 1921.
“Eu fui diagnosticada com depressão, então só quem vive isso sabe o quão difícil é o dia a dia, assim, você se olhar e não se reconhecer, você olhar pra fora e ver realmente tudo preto e branco, infelizmente. (…)”
A atleta Kika Brandino compartilhou publicamente sua experiência com a depressão. Em entrevista exclusiva ao Campo Delas, do Portal Ig, a volante conta que suas crises começaram em 2023, durante o período em que ela atuou pelo São Paulo.
“Cheguei a um ponto em que a minha performance começou a ser afetada, e aquela rotina não fazia mais sentido. Percebi que não estava mais conseguindo lidar com a situação sozinha. Eram inúmeras crises ansiedade, tristeza, pensamentos ruins e desesperança. Foi um momento muito difícil, tentei mudar os ares, ambiente e pessoas, mas entendi que eu precisava pausar minha carreira e buscar ajuda.”
Treinadores como peça-chave na formação
Um dos pontos destacados pelo projeto norte-americano é o papel dos treinadores como primeiro contato quando uma atleta enfrenta dificuldades emocionais. Muitas jogadoras não reconhecem, de imediato, sinais de sofrimento mental e acabam encontrando resistência ou despreparo ao buscar ajuda.
Trazer essa discussão para o Futebol Feminino brasileiro é urgente. Além disso, investir em formação de treinadores, educação emocional e ambientes mais seguros pode ser decisivo para manter meninas no esporte e reduzir o abandono precoce.
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O que o Brasil pode aprender com esse modelo
Embora o Instituto Kang seja uma iniciativa dos Estados Unidos, suas propostas dialogam diretamente com os desafios enfrentados no Brasil: falta de pesquisa específica, carência de investimento em saúde feminina e ausência de políticas estruturadas de longo prazo.
Com a Copa do Mundo Feminina de 2027 no horizonte, o país tem uma oportunidade histórica de ampliar o debate sobre ciência, saúde e permanência das atletas no esporte. O crescimento do Futebol Feminino não pode se sustentar apenas em resultados e audiência — ele precisa passar, necessariamente, pelo cuidado com quem entra em campo.
Além disso, entender o corpo feminino, respeitar seus ciclos, oferecer suporte psicológico e estruturar políticas de prevenção não é uma necessidade. Iniciativas como a da US Soccer mostram que o caminho para um esporte mais justo começa fora das quatro linhas.
