Botafogo e Corinthians vão realizar, neste domingo (30), uma ação inédita no futebol brasileiro para denunciar a violência contra a mulher. No clássico marcado para a Neo Química Arena, os jogadores entrarão em campo com camisas que unirão elementos de duas campanhas de grande impacto: Números Quebrados, do Botafogo, e Quem Matou?, do Corinthians. Assim, os clubes transformarão o jogo em um ato de conscientização.

Os números dos uniformes serão redesenhados a partir de radiografias reais de mulheres vítimas de agressão. Além disso, a barra frontal exibirá a pergunta “Quem matou?”, acompanhada dos nomes de mais de 40 vítimas de feminicídio. Dessa forma, as duas estéticas se encontrarão para evidenciar um ciclo de violência que, frequentemente, começa com agressões e pode terminar em morte.
Dados que acendem o alerta
A ação acontecerá em um cenário alarmante. No Brasil, uma mulher é agredida a cada dois minutos. Em dias de jogos, esse número sobe 26%. Além disso, o país ocupa a quinta posição global em feminicídios. Apenas em 2024, 1.492 mulheres foram mortas, uma média de quatro por dia. Por isso, Botafogo e Corinthians decidiram transformar a rivalidade em união e levar o tema para o centro do gramado.

Futebol como agente social
Paula Young, head de ativações do Botafogo e líder do projeto Hora Delas, reforça o potencial do futebol na luta contra a violência. “Quando dois rivais históricos ocupam o mesmo lado, a mensagem ganha outra dimensão”, afirma. Assim, ela destaca que a força simbólica do esporte ampliará o alcance do debate e evidenciará a urgência do tema.
A fundadora da ONG Cruzando Histórias, Bia Diniz, parceira da ação, também aponta o impacto da iniciativa. Segundo ela, quando o futebol usa sua visibilidade para proteger mulheres, abre espaço para conversas essenciais sobre prevenção, acolhimento e mudança cultural.

Treinamento e acolhimento no estádio
Antes da partida, a Neo Química Arena receberá, pela primeira vez, um treinamento oficial de combate ao assédio destinado a torcedores, colaboradores e equipes do estádio. Além disso, a partir deste domingo, o local passará a contar com duas salas permanentes de acolhimento para vítimas de assédio ou discriminação.
O Botafogo já realiza esse tipo de capacitação no Estádio Nilton Santos. Agora, junto ao Corinthians, pretende incentivar a CBF a transformar o treinamento antiassédio em protocolo oficial em todos os estádios da Série A a partir de 2026. Assim, a ação poderá ganhar alcance nacional.

Compromisso que continua
Após o jogo, parte das camisas usadas pelos atletas será leiloada. Toda a renda será destinada a projetos de apoio a mulheres em situação de vulnerabilidade. Paula Young reforça que o impacto precisa se traduzir em ações práticas. “Toda ação que gera impacto deve se transformar em benefício direto para quem enfrenta essa violência todos os dias”, destaca.
Sônia Andrade, gerente de Responsabilidade Social do Corinthians, também celebra a parceria. Para ela, a união reforça um tema prioritário no clube. “A união dos dois clubes potencializa o combate à violência contra a mulher”, afirma. Ela lembra que campanhas anteriores já deram visibilidade a instituições que acolhem vítimas, o que reforça a continuidade do compromisso.

