Lindsay no comando da Seleção da Costa Rica - Reprodução/Instagram
O Brasil é referência quando o assunto é futebol, dentro e fora dos gramados. Além de grandes nomes que fizeram história, personagens atuais seguem levando o nome do país mundo afora. A técnica Lindsay Camila é um dos destaques atuais quando o assunto é Futebol Feminino. O desafio do momento é comandar uma seleção, ela é a primeira estrangeira a comandar a Costa Rica, adversário das brasileiras no primeiro amistoso de 2026, nesta sexta-feira (27).
Natural de Campinas, Lindsay Camila respira futebol. Iniciou a carreira como jogadora e depois de se aposentar dos gramados, precocemente devido à uma lesão, começou a atuar fora das quatro linhas. Passou pela comissão técnica das categorias de base e também de equipes pelo Brasil e outros países pelo mundo.
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Primeiras impressões na Costa Rica
Chegou na Costa Rica em dezembro de 2025, e já atuou por dois jogos oficiais no comando da Seleção da Costa Rica, com uma vitória contra Granada e uma derrota para o México. Ao Campo Delas, ela relembrou que foi muito bem recebida no país.
“É um lugar onde fui muito bem acolhida e me valorizaram, fiquei muito feliz com a valorização. Estou amando a Costa Rica, fui muito bem recebida”, disse Lindsay.
Reprodução/Instagram
Em contrapartida, percebeu que no país de origem as mulheres ainda não tem uma boa acolhida quando se trata de mulheres no comando de equipes.
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“Às vezes eu me sentia triste no Brasil. É importante a gente saber que é valorizado no nosso próprio país. E nem falo de seleção, porque estamos muito bem representadas pelo Arthur [Elias], que vem fazendo muitas coisas boas. Falo de clubes. É muito triste, em um futebol feminino que está cada vez mais profissional, termos cada vez menos mulheres no comando. Não é que mulher seja melhor que homem, mas precisamos dar espaço. Na minha comissão, meu auxiliar é um homem e eu me dou muito bem com ele, ele me faz crescer. Então não é sobre sexismo, é sobre dar espaço para mulheres na parte técnica, onde temos cada vez menos”, relembrou a brasileira.
A treinadora quer implantar no país um estilo de jogo mais parecido com o brasileiro, ofensivo, e a classificação para a Copa do Mundo 2027 é um dos objetivos de Lindsay.
“Elas entenderam a ideia, mas é pouco tempo para mudar um sistema de 10 anos. Estou tentando implementar um estilo de “jogar para frente”. Elas têm muita paixão pela Seleção. Busquei ativamente um jogo contra o Brasil porque, para ir para a Copa do Mundo, precisamos jogar contra os melhores. O Brasil está entre os cinco melhores do mundo hoje. É perdendo e aprendendo que a gente melhora”, explica a treinadora.
Costa Rica na Copa do Mundo 2027
Para Lindsay, a equipe tem chances reais de estar na Copa que será realizada no Brasil. “Acho muito real e precisamos ganhar os jogos da primeira fase. A segunda fase da CONCACAF ainda tem incertezas no regulamento, mas de oito equipes, seis classificam para a fase seguinte. Então temos bastante possibilidade”, completou.
A brasileira Lindsay Camila comanda a Seleção da Costa Rica – Reprodução/Instagram
Lindsay Camila acompanhou as jogadoras convocadas para a Seleção da Costa Rica pela Europa e pelas Américas (Sul, Central e Norte). Ela aproveita para ver as atletas atuando no dia a dia.
“Eu estive na França, Espanha e Turquia. Nós temos cerca de cinco atletas da Costa Rica na Europa: a Melissa, no Marselha, a Shirley Cruz, no PSG, a Stephanie, no Oviedo, a Priscila Chinchilla, no Atlético de Madrid e a Salas, na Turquia. Fui visitar essas atletas para entender o dia a dia delas, ver como estão se sentindo e estar mais próxima. A Costa Rica é um país menor, com menos atletas exportadas, então é importante como treinadora estar perto. Aproveitei também para fazer visitas técnicas, como no West Ham, para ver como estão trabalhando”, conta.
Para Lindsay, um exemplo a seguir no Futebol Feminino é o inglês. Ela apontou as boas experiências que viveu durante a visita e também as diferenças entre Brasil e Costa Rica.
“Para mim, hoje o exemplo é a Inglaterra. Estive no West Ham e a estrutura é absurda. Eles têm quatro analistas de vídeo, preparador físico, uma infraestrutura muito diferente. O nível técnico e físico do campeonato inglês é muito alto. Na Costa Rica, o futebol feminino ainda depende muito do masculino, que não classificou para a Copa, o que afeta o investimento. O teto salarial lá é cerca de mil dólares (R$ 5.000), enquanto no Brasil, em times como Palmeiras e Corinthians, chega a 80, 100 mil reais. Mas as atletas da Costa Rica são muito inteligentes, têm uma parte cognitiva muito boa e muitas fazem faculdade. A rotina lá é diferente, os treinos começam às 5h30 da manhã, então elas acordam de madrugada”, finalizou.
A treinadora acredita que o profissional não depende só do clube ou do dinheiro. Para Camila, o profissionalismo é 24 horas: dormir bem, se alimentar bem, estar focado. E de acordo com técnica, a Costa Rica as atletas buscam comer bem, diferentemente da Arábia Saudita, onde se comia muita coisa errada por aplicativo.
Amistoso da Costa Rica contra o Brasil
O primeiro desafio do ano da Seleção da Costa Rica tem o dedo de Lindsay na escolha. Logo que chegou ao país pediu para que os adversários em amistosos fossem equipes fortes.
“Na segunda convocação, já me deu essa loucura de ir atrás de um jogo com o Brasil, porque eu acho que é isso: se a gente quer ir para a Copa do Mundo, eu tenho que ir atrás. Eu falei: ‘Não, vamos jogar com os melhores, vamos fazer o que tiver que fazer para a gente estar nessa Copa do Mundo’. Vamos jogar com um time que ataca muito, então vamos ver como é que vai ser nessa próxima convocação”, contou ao Campo Delas.
Reprodução/Instagram
Lindsay acionou a comissão brasileira e pediu um data para que as seleções pudessem se enfrentar. E, por sorte, a agenda estava livre logo na primeira Data FIFA do ano.
“Mandei uma mensagem para a Cris [Gambaré], que é a diretora do Futebol Feminino: ‘Oi Cris, tudo bem? É a Lindsay, acertei aqui com a Costa Rica e queria saber como vocês estão em junho ou outubro’. Ela me falou: ‘Lindsay, tenho em fevereiro’. Eu respondi: ‘Então vamos firmar isso agora'”, relembra.
Apesar do desafio, Lindsay encara o confronto como uma excelente oportunidade de testar o estilo de jogo que está implantando na Costa Rica. O resultado, para ela, fica em segundo plano perto da experiência que as atletas terão.
“Estou pensando que a gente pode ter um resultado importante, não digo ganhar ou perder, mas sim tentar jogar um futebol contra uma equipe que é vice-campeã olímpica. O primeiro ponto para a gente querer chegar em uma Copa do Mundo é jogar contra os melhores, e o Brasil é um dos melhores, sim. Hoje eu coloco o Brasil entre os cinco melhores do mundo fácil, jogando o que está jogando. Então, eu vejo que se a gente quer estar em uma Copa, temos que jogar contra esses melhores. É perdendo e aprendendo que a gente vai conseguir melhorar a nossa maneira de jogar”, disse a treinadora.
Treinadora atuou no Brasil e fora do país – Letícia Martins / EC Bahia
Experiência de Lindsay na Arábia Saudita
Lindsay Camila comandou o Al-Ittihad por cerca de seis meses. Apesar do pouco tempo, teve uma experiência diferente do que havia vivido até então no Brasil e na França.
“Financeiramente foi bem positivo, consegui ajudar minha família. Mas socialmente e culturalmente foi muito difícil. Vida social zero. Os treinos no Ramadã começavam às 10 da noite e iam até de madrugada. Tive que lidar com muitas restrições. Depois da Arábia, eu já sei o que eu quero e o que eu não me permito mais fazer”, disse Lindsay.
Sobre a Copa do Mundo no país árabe, e sobre como o Futebol Feminino é tratado no país, a treinadora acredita que existirão desafios até o torneio mundial. A Arábia Saudita é uma das candidatas para o mundial de 2035.
“O meu clube me tratou muito bem, o feminino foi bem tratado. Mas acho que os estrangeiros vão ter que ter muito cuidado e respeito com as leis e costumes, que são muito diferentes do Catar, por exemplo. A Arábia é o centro da religião muçulmana. Estrutura física e transporte eles vão resolver, mas a questão cultural é sensível. Algumas coisas estão em transição, como mulheres dirigindo e o uso da abaya, mas ainda é um ambiente restritivo”, completou.
Lindsay Camila vai comandar a Seleção da Costa Rica – Reprodução/Instagram
Jornalista pós-graduada em Comunicação Integrada e Marketing, atua no digital há mais de 17 anos como repórter e editora. No Portal iG há cinco anos, escreve para Baixada Santista e Esportes. Mãe de primeira viagem do pequeno Otto, assim como as Sereias da Vila, o escritório é na praia!