Quando pensamos em futebol, maternidade não é a primeira palavra que vem à mente. Mas, no Futebol Feminino, essa é uma realidade presente na vida de muitas atletas. No passado das proibições e limitações, pensar em ser mãe era quase uma sentença de fim de carreira. Hoje, a modalidade tem alcançado cada vez mais estrutura, apoio e regras que viabilizam o maternar em sua totalidade.
O Campo delas, do iG, conversou com Patrícia Menezes, pioneira do Futebol Feminino, primeira atleta convocada para a Seleção Brasileira Feminina do estado de Goiás, gestora do Aliança Futebol Clube e mãe da Ana Júlia, Juliana e Fabiana. Em 1991, a goleira Patrícia foi convocada para a Copa do Mundo daquele ano, mas ela não pôde realizar o sonho de toda atleta. Venha conhecer essa história.
O encontro com o Futebol Feminino
Patrícia cresceu tendo na figura da mãe o primeiro contato com o futebol. Ela contou ao Campo Delas, que via sua mãe torcendo, de forma apaixonada, ouvindo os jogos pelo rádio:
A minha mãe era torcedora assim de uma equipe aqui em Goiás, ela era muito fanática, ela era torcedora de rádio. Ela gostava demais de futebol, sabe? E então eu fui criada numa família assim, o futebol sempre fez parte da minha vida. Meu pai, meus irmãos, minha mãe, todos gostavam de futebol e eu fui crescendo ali junto com o futebol. E foi isso que me fez gostar do futebol.”
A ex-atleta sempre esteve envolvida com práticas esportivas, jogava queimado, handebol, estava sempre em movimento. Foi aos 17 anos, que sua realidade passaria, enfim, pela mudança mais significativa até aquele momento. Patrícia atuava como goleira no handebol e ao receber o convite de uma amiga para uma partida de futebol, se voluntariou a ocupar a mesma posição no time. Nessa época, o Futebol Feminino ainda vivia uma fase de proibição, mas em Goiás, grupos se reuniam para a prática da modalidade e, assim, até mesmo para a realização de torneios.

Foi num desses torneios que a ex-atleta participou, levada por essa amiga e foi protagonista do jogo. Sua atuação foi impecável e garantiu a vitória, com direito a defesa de 3 pênaltis, na disputa final após empate no tempo regulamentar. Patrícia conta o quanto aquela experiência a marcou:
Foi a primeira vez que eu joguei. Eles iam jogar e queriam uma goleira, porque a goleira deles não pôde jogar. Era um jogo importante e precisavam de uma goleira. Aí eu falei assim: ‘Ah, então deixa, eu vou, eu jogo’. Joguei no gol. E nesse dia, por causa da minha experiência eu me saí muito bem, defendi demais! O jogo terminou empatado e foi para os pênaltis. Na disputa, eu defendi três pênaltis e nossa equipe ganhou. Com a vitória, o pessoal me colocou em cima das costas e foram dar a volta olímpica no campo. Era um jogo na várzea, com aquele tanto de gente, domingo à tarde, o terrão. Estava todo mundo assistindo o jogo lá e torcendo, nossa torcida era a maioria e eles me ovacionaram.”

A sensação de pertencimento
Após esse momento único vivido com aquela vitória, Patrícia se sentiu, portanto, diferente de tudo que já tinha experimentado com os outros esportes. Em sua concepção, nas outras modalidades, a cor da sua pele criava uma certa indiferença, mas no Futebol Feminino ela se sentiu acolhida, ela se viu reconhecida por suas habilidades. Em sua entrevista ao Campo Delas, ela exalta bem essa sensação de pertencimento:
Eu não escolhi a carreira de futebol, o futebol que me escolheu. Por ser negra, nas outras atividades que eu fazia eu era a última a ser escolhida, sabe? Eu era a última a participar das coisas. Eles só me escolhiam porque eu estava ali presente. Mas no futebol não, no futebol, naquele dia, ninguém notou a minha cor, ninguém me discriminou. A princípio eles não me conheciam e depois eles gostaram de mim pela minha atuação na partida. Por isso que eu falo que o futebol que me escolheu. A partir dali eu pensei: esse é o esporte que eu quero pra mim. Porque as pessoas me viram pela minha habilidade, ninguém me discriminou, eu fui muito bem tratada.”

A carreira profissional e a chegada à Seleção Brasileira
Patrícia realmente nunca mais abandonou o futebol. Se tornou jogadora profissional, atuou por equipes da região e se consolidou como atleta do Atlético Goianiense. Foi lá que conheceu seu companheiro mais fiel, seu esposo Luiz Cézar Ferreira da Rocha. Apesar de bem-sucedida, Patrícia passou por grandes desafios como atleta do Futebol Feminino:
Passei por diversos obstáculos dentro do Futebol Feminino. Quando eu comecei a jogar, ainda era proibido. Mas a gente participava de campeonatos organizados por nós mesmas. Foi apenas no início dos anos 80 que foi liberado jogar. Foi quando vieram os preconceitos, o preconceito de gênero. As pessoas falava iríamos “virar sapatão”, que ficaríamos com a perna grossa que nem homem, que não era coisa pra mulher. Foram obstáculos difíceis, passamos um período muito árduo, nessa questão do gênero, né, de tudo. Foi muito preocupante viver tudo isso”

Aos poucos, sua atuação como goleira foi ganhando destaque e mesmo atuando fora do eixo Rio-São Paulo, o que era extremamente incomum no início dos anos 90. Assim, foi convocada para período preparatório da Seleção para Copa do Mundo de Futebol Feminino de 1991. Apesar de ter ficado realizada com oportunidade, inicialmente, ela não quis se apresentar pois tinha sido mãe recentemente. Sua primeira filha, Ana Júlia, estava com dez meses e ela ainda a amamentava. Foi o esposo Luiz que a incentivou e Patrícia então, atendeu a convocação, levando a filha e determinada a conciliar carreira e maternidade.

O corte na seleção e o fim do sonho da Copa do Mundo
Quando se apresentou junto com o grupo para os treinamentos, Patrícia levava sua bebê no colo. A situação causou espanto nos membros da comissão da Seleção Brasileira, mas as outras atletas acolheram a jogadora. Mesmo com a situação adversa, ela seguiu com a equipe e participou dos primeiros treinamentos, onde contava com a ajuda das companheiras nos cuidados com Ana Julia.

Patrícia conta que a decisão de levar a filha nunca foi um arrependimento e compara a realidade que viveu, com o atual momento do Futebol Feminino, onde a CBF passou a oferecer apoio as atletas que vivem hoje, situação semelhante a sua.
Eu não me arrependo, porque na época foi muito difícil. Quisera eu que naquela época tivesse a estrutura que o Futebol Feminino tem hoje. Quando eu fui convocada para a Seleção, eles não achavam que eu ia levar minha filha para fazer parte dos treinamentos. Na época ela tinha 10 meses, e eu ainda amamentava. Além de ser minha primeira filha, ela era muito apegada. Então, eu tive que abrir mão de ir para a Copa por conta dela. Foi uma escolha que eu fiz e que eu não me arrependo. Me arrependeria se eu não tivesse ido aos treinamentos. Foi a coisa mais acertada que eu fiz, ir nos treinamentos e levar ela. Porque quando eu voltei, eu voltei com mais vontade ainda de me dedicar pro Futebol Feminino.”
Ela ainda completa seu relato, projetando como seria sua situação, se vivida nos dias atuais:
Eu vejo a seleção hoje, com toda essa estrutura que a CBF tem e se hoje eu que eu tivesse um filho de 10 meses, tenho certeza que quando eu chegasse lá, eles iam dispor de uma pessoa pra cuidar da minha filha enquanto eu treinava. Iriam me dar todo o respaldo, que naquela época eu não tive. E hoje com a valorização do Futebol Feminino o pessoal entendeu que a maternidade não é empecilho pra ninguém poder participar do futebol.”
Durante o período de treinamentos em preparação para a Copa Do Mundo de 1991, Patrícia foi cortada do grupo na primeira rodada de avaliações. Membros da comissão e a imprensa da época deixaram claro que a presença da filha e o fato de colocar a maternidade em primeiro plano foram, portanto, determinantes para que ela fosse retirada da lista.

Uma vida pelo Futebol Feminino
A história da ex-goleira e pioneira do Futebol Feminino não se resume a esse recorte. Patrícia Menezes fez do futebol muito mais que sua profissão. Em paralelo a carreira esportiva, se formou em educação física, assumiu a gestão do Aliança Futebol Clube ao lado do esposo, obteve certificação A, B e C pela CBF. Foi professora e fomenta incansavelmente a modalidade em Goiás.

A frente do Aliança, ela e sua família, inclusive Ana Júlia, sua primogênita, lutam com recursos limitados e na maioria das vezes próprios, para continuar atendendo jovens atletas que sonham em alcançar sucesso com o Futebol Feminino. O clube é o maior campeão do estado e esteve presente na Copinha Feminina realizada em 2025, a maior competição de base da modalidade.
Patrícia é um grande exemplo de que a maternidade e o Futebol Feminino são complementares e não adversários. Atletas de alto rendimento precisam de suporte e acolhimento para todas as fases de sua vida, sem precisar escolher entre a carreira e suas realizações pessoais. Feliz dia das mães.
