Construir uma carreira inteira fora do Brasil ainda é uma exceção no Futebol Feminino nacional. No caso de Kathellen, zagueira do Al Nassr, essa trajetória não foi apenas uma escolha, mas uma necessidade para seguir vivendo do esporte. Em entrevista exclusiva ao Campo Delas, a jogadora relembrou o início da caminhada longe de casa, falou sobre a vida no Oriente Médio e refletiu sobre identidade, cultura e pertencimento.

Natural da Baixada Santista, Kathellen viu o sonho de jogar profissionalmente no Brasil ser interrompido ainda muito jovem. Entre 2012 e 2014, o Santos, clube mais próximo de sua realidade, desativou o Futebol Feminino, cenário comum à época. Prestes a completar 18 anos e com a necessidade de ajudar financeiramente a família, a saída do país surgiu como alternativa para não abandonar o futebol.
“Sair do Brasil acabou sendo um último respiro para continuar vivendo o meu sonho. Ir para os Estados Unidos foi a oportunidade que encontrei para seguir jogando futebol e, ao mesmo tempo, estudar”, contou.
Mesmo com o desejo recorrente de retornar ao país, a jogadora optou por seguir fora. A decisão, segundo ela, sempre passou por uma análise entre o lado emocional e o profissional.
“Voltar para o Brasil seria a decisão mais fácil emocionalmente, por estar perto da minha família. Mas, profissionalmente, encontrei fora do país melhores oportunidades e mais segurança para crescer na carreira.”

Futebol Feminino no Oriente Médio: desafios e descobertas
Atuar na Arábia Saudita ainda é algo pouco explorado no Futebol Feminino, mas Kathellen vê sua presença no país como parte de um processo maior de construção e visibilidade da modalidade. No Al Nassr, ela percebe um movimento inicial, mas consistente, de investimento e organização.
“Nós, jogadoras internacionais que atuamos aqui, estamos ajudando a abrir portas e dar visibilidade ao Futebol Feminino. Fazer parte desse processo é um grande prazer.”
Dentro e fora de campo, a adaptação trouxe surpresas. O calor extremo, que ultrapassa os 40 °C no verão, e a língua árabe aparecem como desafios naturais. Ainda assim, o acolhimento da população local marcou positivamente a atleta.
“O que mais me surpreendeu foi o carinho das pessoas. Eles são extremamente gentis e mostram interesse em cuidar do próximo.”
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Estrutura, base e calendário em evolução
O Al Nassr mantém categorias de base tanto no masculino quanto no feminino, algo ainda raro em muitos países quando se trata da modalidade. Apesar de o Futebol Feminino ser recente no país, o calendário vem ganhando mais corpo.
Antes restrito a um jogo por semana, o campeonato passou a contar com novas competições nesta temporada, aumentando a frequência de partidas e o ritmo das atletas, ainda que com períodos de descanso considerados adequados.
Identidade, cultura e segurança
Um dos pontos mais sensíveis da entrevista foi a relação de Kathellen com a cultura saudita, especialmente enquanto mulher estrangeira. A jogadora fez questão de desconstruir estereótipos comuns ao falar sobre segurança e liberdade.
“A cultura pode parecer muito restritiva à primeira vista, mas, na prática, ela proporciona uma grande sensação de liberdade e segurança. Como mulher, me sinto tranquila para sair sozinha em qualquer horário.”
Ela compara essa vivência com o Brasil, destacando o contraste entre liberdade estética e segurança real.
“No Brasil, muitas vezes temos uma falsa sensação de liberdade. Aqui, usando uma vestimenta simples, consigo andar na rua em paz.”
A adaptação passou, principalmente, pelo respeito aos costumes locais, especialmente no modo de vestir. Ainda assim, Kathellen ressalta que essas mudanças não interferiram em sua essência.
Torcida, visibilidade e o que ainda falta
A presença de público nos jogos femininos ainda está em construção, mas a atleta percebe crescimento gradual no interesse, tanto de mulheres quanto de homens. Para ela, o Futebol Feminino na Arábia Saudita vive uma fase inicial, semelhante a outros processos já vistos em diferentes países.
Saudade que atravessa continentes
Apesar da adaptação e da experiência positiva, a distância cobra seu preço. Kathellen sente falta da família, de acompanhar o crescimento dos sobrinhos e, claro, da comida brasileira.
“Sempre que posso, levo tapioca e cuscuz e estou sempre preparando”, contou, entre risadas.
A trajetória de Kathellen ajuda a iluminar caminhos pouco explorados no Futebol Feminino e reforça como, muitas vezes, jogar fora do Brasil não é apenas uma escolha, mas uma estratégia de sobrevivência profissional. No Oriente Médio, ela segue escrevendo uma história que conecta futebol, cultura e identidade: longe de casa, mas fiel ao sonho que a fez sair.
