O futsal tem sido um dos maiores aliados na formação de jogadoras do Futebol Feminino de campo. Além disso, como o jogo acontece em um espaço menor e com ritmo mais rápido, as atletas têm mais contato com a bola, aprendem a pensar depressa e a ter maior precisão nos passes e finalizações.
Em entrevista ao Campo Delas, Maria Cristina de Oliveira, pós-graduada em futsal, futebol e basquete e treinadora da primeira Seleção Brasileira de Futsal Feminino e o pesquisador e professor universitário Thiago André Rigon, pós-doutorando na USP e especialista em futsal, futebol e pedagogia do esporte, explicam sobre a importância do futsal nessa transição.
Domínio de bola e rapidez
Questionada sobre as habilidades essenciais que o futsal leva para o campo, Maria Cristina avalia: “Para mim, a qualidade de domínio de bola, de passes, rapidez de raciocínio para fazer a leitura do jogo e, ainda, a desenvoltura para aproveitar o jogo mesmo em pequenos espaços (o drible)“, comentou.
Além disso, ao longo de sua carreira, Maria Cristina viu gerações de jogadoras se destacarem depois de passarem pelo futsal.
“O futsal sempre produziu gerações fantásticas de jogadoras para o futebol de campo feminino do Brasil e do mundo. Por exemplo, algumas jogadoras que eu trabalhei foram: Sissi, Márcia Tafarel, Pretinha, Roseli, Márcia Honório, Leda, Cenira, Juliana Cabral, Dani Alves, Gabi Zanotti, Erikinha, Formiga, Fia Paulista, Priscila Bolinha e Bia Vaz“.
Já Thiago André, explica:
“Existe uma percepção consolidada – e que começa a ser confirmada cientificamente – de transferência de habilidades entre futsal e futebol”, explicou André.
”Já há evidências de que a prática do futsal contribui para o desempenho no futebol de campo, muito em função do maior engajamento do(a) jogador(a) com o jogo: mais contatos com a bola, maior intensidade de ações e participação constante em ataque ou defesa.”
“Fundamentos como passe, finalização em curta distância e, sobretudo, o drible, quando bem desenvolvidos no futsal, repercutem de forma muito positiva no futebol”, concluiu Rigon.
Craques vieram da quadra
Jogadoras como Marta, Cristiane e Formiga tiveram passagens pelo futsal antes de brilharem no campo. Isso mostra que a modalidade serve de base para aprimorar a técnica e a inteligência de jogo das atletas.
Com mais de 20 anos de experiência na Educação Física e no Esporte, Thiago ressalta o papel estruturante do futsal no Brasil:
“Embora ainda faltem estudos conclusivos para afirmar que o futsal seja a base da formação de jogadoras no Brasil, há fortes indícios nesse sentido. O futsal é mais acessível, exige menos praticantes, ocorre em espaços reduzidos e está muito presente no ambiente escolar”, disse o treinador.
“Grande parte das atletas brasileiras de futebol já teve alguma experiência com a modalidade, seja de forma sistematizada ou recreativa. Isso reforça o papel do futsal como contribuição significativa para a formação, sobretudo no contexto nacional”, concluiu Thiago André.
Noção de tempo e espaço
No entanto, a mudança do futsal para o campo traz desafios. As jogadoras precisam aprender a se posicionar, usar todo o espaço do gramado e a lidar com jogos mais longos.
“Acredito que a noção de tempo e espaço (sejam diferentes), já que o futsal é jogado em uma quadra de 40x20mts. O campo exige que a atleta tenha essa noção mais específica“, finalizou Maria Cristina.
Já o treinador esportivo detalha os desafios de adaptação das atletas:
“Ao migrar do futsal para o futebol de campo, as jogadoras precisam se adaptar a pelo menos quatro dimensões centrais: o espaço de jogo, que demanda novas referências táticas e resistência física; as dimensões do gol e o papel das goleiras, que mudam de forma expressiva; a bola, que exige técnicas diferentes de domínio; e a superfície, que altera o padrão de movimentação e esforço físico”, comentou.
“Esses ajustes não anulam a contribuição do futsal, mas reforçam a necessidade de um processo de transição bem planejado”, finalizo Thiago André.